O Bom do Amor

– o espaço para desafogar minha alma exacerbada de sentimentos –


coisas boas demais pra esquecer

atibaia, 24 de março de 2026

ouvindo o amor habita os mais inconcebíveis dos lugares

era uma manhã atípica de domingo. mimi foi fazer trabalho na casa de amigos e passaria o dia inteiro fora. beni ficaria em casa para estudar para as provas bimestrais. embora os hormônios desta adolescência precoce estivesse enlouquecendo um pouco a todos nós, é curioso como o barulho e a vida pulsante da casa é o lugar em que mais nos sentimos familiarizados. em determinado momento da tarde, beni disse: ‘nossa, como essa casa é esquisita sem o mimi’. concordei. é muito esquisito não viver com o barulho pulsante da casa, embora seja enlouquecedor às vezes. percebi que só tenho gostado tanto do silêncio porque está tudo barulhento demais. acho que lá na frente, quando a casa já estiver mais silenciosa, o que vou mesmo fazer é trazer barulhos. música, dança, amigos. pensei no quanto a vida é cíclica. no quanto em cada fase estamos dedicados a algum projeto especial, no quanto de energia precisamos doar e simplesmente não dá tempo pra tudo. como a educação em si tem exigido estudos, leituras, observação, conversas, diálogos, recomeços, estou numa fase de bastante concha interna – embora meus amigos achem que eu saio e saio e saio e saio. é que vivo um casamento em que neste momento andamos opostos neste quesito: ele precisa de gente pra relaxar; eu, de silêncios e solitude. a solução que tínhamos encontrado era: a gente chama alguns amigos, vamos pra alguma festinha e enquanto eu danço, você conversa. e assim tem sido. em outros dias, sou eu quem fico sozinha quase o dia todo fazendo vários nadas e sendo feliz observando passarinhos, o pôr do sol, as formiguinhas trabalhando, caminhando lentamente só pra sentir o sol e treinar minhas lentes coloridas e olhos de encantamento para o mundo. ahhh, como amo isso! mas voltando ao comentário do beni e da casa silenciosa, me lembrou demais o último livro que li de virginie grimaldi – ‘as pequenas alegrias’, em que uma das personagens precisa reaprender a viver depois de ter dedicado ininterruptos 23 anos nesta convivência tão intensa com os filhos. ela não sabe mais quem ela é. pude ver na minha mãe o quanto ela sentiu a síndrome do ninho vazio também. tem uma coisa que é inegociável pra mim: catalogar meus prazeres, só os meus, pra eu não me perder de quem sou no meio do caminho. porque depois fica muito fácil cair na armadilha de colocar alguma pressão de que sou assim e assado pelo que deixei de viver ou pelo que abdiquei por ter ficado com as crianças – e isso não quero de jeito nenhum. por isso a escrita como forma terapêutica pra mim é tão, tão essencial. às vezes entro em um fluxo de consciência tão profunda que quando percebo, escrevo e as respostas estão todas ali. como um novo caminho a ser percorrido, uma bifurcação que chega repentinamente pra que eu decida por onde ir, o que vou precisar abrir mão pra recomeçar. enfim, ler este livro me tocou de maneiras profundas. no fim daquele domingo atípico, mimi voltou pra casa, o barulho se restabeleu, era dia de corinthians x flamengo, sentamos na sala pra assistir ao jogo juntos, beni decidiu ir para seu quarto no meio do caminho (e isso já vai inaugurando algumas despedidas). mimi pegou sua coberta e algum bichinho que ele gosta de ter por perto, meus pés estavam encostando nos pés do lu, caiu um cilio dele e fizemos aquela brincadeira dos dedos, de tocar os dedos indicadores, fechar os olhos, fazer um pedido, checar ‘quem ganhou’ e colocar o cílio dentro da blusa. achei um momento tão gracioso. mais um dia perfeito, com minhas pessoas favoritas, vivendo o mais absoluto extraordinário comum. que vida bonita!



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