Atibaia, 8 de janeiro de 2021.

Hoje o dia começou meio mágico. Não sei explicar. Tem dias que sou tomada por uma sensação de paz interior tão única, e eu fico aqui, sorvendo este momento que tem sido mais difícil de acessar.

Pela manhã, me arrumei bonita como se fosse sair para trabalhar, entrei no mundo encantado do escritório e pude experimentar horas sem interrupção, já que os meninos tinham ido passar umas horinhas com meus pais.

Revisava um texto e procurava sugestões para trabalhar o tema ‘caderno’. Lembrei de como eram os meus na escola, eu amava cortar palavras aleatórias de revistas e criar todos os anos um caderno ‘único’, encapado com papel contact e que traziam tanto de mim, tanto de personalidade quanto de claridade quando as aulas da escola eram chatas ou não – as chatas sempre traziam no meio das matérias uma música, normalmente do legião urbana, que me desconectasse daquela realidade.

Acessei um lugar tão precioso em mim. Olhei para minhas mãos que materializam o meu amor pela escrita, por causa do calo no dedo médio da mão direita. Relembrei dos meus diários, me arrependi profundamente por não tê-los guardado. Quanta riqueza e memórias estariam ali!

Lembrei do filme “Escritores da Liberdade”, com a Hilary Swank, onde ela transformou seus alunos por meio da motivação em ver beleza em suas histórias. Me tocou muito assisti-lo na época.

Coloquei a música “Caderno”, do Toquinho – fui direto para o vídeo do meu casamento. Escolhi essa música para minha retrospectiva de vida antes de conhecer o Lu – prometi pra mim mesma que ia rever tudinho de novo.

Quando terminou a música, olhei na barra lateral de próximas indicações e estava lá: Maria Bethânia | Abraçar e Agradecer – show completo. Confesso não ter Bethânia em meu repertório musical cotidiano, mas aqueles verbos me chamaram. “Abraçar e agradecer”.

Apertei o play. Fiquei estática. Entregue àquele espetáculo que em mim, teve o impacto de uma meditação, terapia, me trouxe tantos questionamentos internos só em ver sua grandeza simples em seus rituais, seu foco e concentração, sua entrega com seu propósito, seus itens de segurança emocional, sua força, sua luz. A experiência com fone fez com que eu fechasse os olhos e me imaginasse ali, ao vivo, pulsando, sentindo, recebendo aquela energia divina.

Pra quem quiser assistir.

Difícílimo explicar em palavras o que foi esta epifania.

Me dei de presente assistir ao show completo. Me permiti me emocionar, prestar atenção a cada letra de música que ela cantava, na harmonia da banda, tanta beleza, tanta poesia… mais tarde, coloquei de novo os primeiros 10 minutos – aqueles que me atravessaram!

Me inspirei nela pensando em meus próprios rituais matutinos, o sorriso pra Deusinho e o Universo amado quando abro a janela e olho para o céu todas as manhãs, a conversa com as paredes de meu lar para envolvê-lo de amor e paz – apesar de. Os incensos que diariamente trazem aroma e me lembram de manter a calma. A necessidade de ordem para começar a trabalhar. Minha organização material que também é minha organização mental. Meus cristais, livros amorosos, tudo que me traz inspiração e onde eu busco minha conexão. Minha necessidade de silêncio ao fim do dia, às vezes um episódio de uma série favorita, às vezes mais um capítulo do livro da vez – mas o silêncio, sempre. A água quente no banho, intencionando purificação, clareza, sabedoria. O passe e a oração antes de dormir. Enxergar Deus através da natureza e me sentir parte do todo.

Depois do processo entre a chegada ao teatro e a hora do show, e da música de abertura, Bethânia declama um texto de sua autoria de uma maneira tão linda, forte, potente. Quero deixar registrado como uma forma de oração:

“Chegar para agradecer e louvar: o ventre que me gerou, o orixá que me tomou, a mão da doçura que consagrou, louvar a água da minha terra, o chão que me sustenta, o punhal do susto de cada dia, agradecer as nuvens que logo são chuvas que serenizam os sentidos e ensina a vida a reviver. Agradecer aos amigos que fiz, e que mantém a coragem de gostar de mim, apesar de mim. Agradecer à alegria das crianças, as borboletas dos meus quintais – reais ou não. A cada folha, a toda raiz, as pedras majestosas, e também aquelas pequeninas. Agradecer ao Sol que raia o dia e a Lua, que como menino Deus, espraia luz e vira meus sonhos de pernas para o ar. Agradecer às marés altas e também aquelas que levam para outros costados todos os males. Agradecer à tudo que canta livre no ar. Agradecer ter o que agradecer. Louvar. E abraçar.”

Que presente este de hoje.
Foi mágico em mim.

Meu beijo,
L.

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