Comunidade da Escrita Afetuosa- maio26

Este texto foi escrito a partir da provocação do tema de Maio da Comunidade da Escrita Afetuosa de Ana Holanda – Limites na criação literária: para nós, o feminino limita as histórias que contamos?

Exercício 1
Escreva um texto no qual o protagonista é um homem machista. A única exigência é a presença desse homem. A cena, o enredo e o estilo de escrita (conto, depoimento em primeira pessoa, etc.) é você quem define. Aqui não existe certo ou errado. O objetivo é perceber o quanto você consegue, ou não, criar um personagem diferente de si. Muitas vezes, tivemos uma educação machista, um pai, namorado, marido ou chefe machista. Mas será que isso nos dá material para a construção de um personagem assim sem criar algo estereotipado?_____________________________________________________________

“A casa só funcionará quando ela abaixar os olhos.”

Foi assim que me foi ensinado. Meu pai dizia. Meu avô dizia. O pastor dizia. Homem que precisava explicar demais sua autoridade dentro de casa já tinha perdido ela. Então eu nunca explicava. E só parei quando, ao entrar em qualquer ambiente, o silêncio veio. Assim como um cachorro bem treinado.

Eloá desaprendeu a rir depois do casamento. Achei ótimo, mas tive trabalho. Não aconteceu de uma vez. Assim como um jardim, precisei fazer tudo em pequenas podas. Primeiro foram as roupas. Depois as amigas solteiras. Depois o trabalho. Mulher que passa tempo demais fora de casa começa a imaginar liberdade, e liberdade é um veneno lento. Quando ela engravidou do nosso segundo filho, eu pedi que largasse o emprego. Pedi não. Comuniquei. Exigi.

Ela chorou no banheiro naquela noite.

Mulher chora por qualquer luto pequeno. Chora pelo sobrenome que perdeu, pelo corpo que mudou, pela vida que não viveu. Mas aprende. Todas aprendem.

Na igreja, os homens sentavam na frente. Eu gostava daquilo. Gostava da ordem invisível das coisas. Deus acima do homem, homem acima da mulher, mulher acima das crianças. Uma corrente. Uma hierarquia limpa. O mundo começou a apodrecer quando quiseram transformar tudo em igualdade. Igualdade é uma palavra bonita para desordem.

Eloá tinha mania de ler escondida de madrugada. Eu fingia que não via até o dia em que encontrei um livro aberto na mesa, cheio de frases sublinhadas sobre independência feminina. Aquilo me deu um asco quase físico.

— Você anda pensando demais.

Ela me olhou como se eu tivesse batido nela, mas eu nunca precisei bater.

Homens burros usam força. Homens inteligentes usam estrutura.
Homem desesperado bate. Homem inteligente corrige sem tocar.

Nunca deixei marcas em Eloá. Marca é prova. Mancha roxa fotografa. Osso quebrado ganha testemunha. Não. Eu sempre preferi o tipo de violência que faz a mulher duvidar da própria memória.

No mês seguinte, troquei a senha do banco. Depois cancelei as aulas de dança da nossa filha. Mulher não precisa aprender a ocupar espaço. Precisa aprender contenção. O mundo já está barulhento demais com elas falando ao mesmo tempo.

Quando Eloá chorava demais, eu perguntava se estava ficando nervosa outra vez. Quando insistia que eu tinha dito algo cruel, eu ria baixo e dizia:

— Você interpreta tudo errado.

Calmo.
Assim, funciona melhor do que gritos.

Depois de um tempo, ela começou a se desculpar. Começou a falar baixo, e assim foi sendo finalmente controlada. Entendeu que o responsável pela sua proteção sou eu, e que ela deve o cuidado com sua família. Esta é a ordem.

No fim, é fácil chamá-la de confusa. Sensível. Instável. Louca.
Elas evitam a discussão, emburram, mas passa logo. E eu continuo limpo.

Eloá foi ficando mais quieta depois disso. Era bonito de ver. Voltou a cozinhar pão nas quartas. Voltou a pedir minha opinião antes de cortar o cabelo. Voltou a me esperar acordada no sofá para satisfazer meus desejos sexuais — e neste momento, se transformava em quatro paredes em uma verdadeira meretriz, como gostava.

Eu sentia uma paz específica em domesticar o caos.

Às vezes, no jantar, meu filho perguntava por que a mãe não trabalhava mais. Eu respondia:

— Porque o lugar dela é aqui.

No fundo, sempre achei curioso como mulheres chamam proteção de prisão quando a porta é trancada por dentro. Elas dizem querer segurança, mas odeiam depender de quem pode fornecê-la.

Eloá começou a emagrecer no último inverno. Os ossos apareciam nos ombros como cabides sob a pele. Ainda assim, continuava bonita. Talvez mais bonita. Existia algo quase santo na obediência cansada dela.

Uma noite acordei e encontrei a cama vazia.

Desci as escadas devagar, já sentindo aquela irritação masculina antiga, a sensação de que algo estava fora do lugar. A porta da lavanderia estava aberta. Eloá estava lá dentro, sentada no chão, encarando a máquina ligada como quem observa um incêndio.

— O que você está fazendo?

Ela demorou para responder.

— Tentando lembrar da minha voz.

Achei dramático. Mulher sempre transforma tristeza em espetáculo silencioso.

Mandei que voltasse para o quarto. E ela voltou.

E foi ali, vendo aquela submissão automática, aquele reflexo treinado, que senti uma coisa estranha crescendo dentro do peito. Não culpa. Culpa é emoção de gente fraca.

Percebi que Eloá já não precisava mais de mim para obedecer. Eu tinha entrado nela como uma doutrina. Como uma oração repetida tantas vezes que deixa de parecer linguagem e vira organismo.

Na manhã seguinte, ela preparou meu café como sempre. Torradas, ovos, café sem açúcar.

— Dormiu bem? — perguntou.

Assenti.

Mas pela primeira vez, enquanto ela colocava a xícara na minha frente, percebi que existia algo pior do que uma mulher rebelde: uma mulher domesticada e vazia.

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Processo criativo:

– Resgatei o caso de Eloá e Lindemberg para pensar no nome da personagem (mas não quis ir para um caminho de feminicídio)
– Revisitei conversas de amigas que infelizmente viveram relações de abusos sexual, físico e psicológico
– Assisti à série “The Handmaid’s Tale” e pude sentir o desconforto por trás dos episódios onde mulheres perdem todos os direitos e aias férteis são forçadas a procriar para a elite, abordando opressão, fundamentalismo e resistência feminina.

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